Audiolivro:

 

 

     Numa bela manhã de primavera os animais do bosque encontravam-se reunidos debaixo do Carvalho Grande. Falava-se de tudo e de nada, apenas para passar o tempo. Mas, como acontece frequentemente quando não se tem nada para fazer, aquela conversa foi-se transformando aos poucos numa acalorada discussão. Foi assim que tudo se passou.

      Gertrudes, a lebre, levantou a pata direita e, olhando-a distraidamente, comentou: 

     - Agora já está mesmo curada da picada daquele espinho... Vejam só que na semana passada quase não conseguia correr. Até parecia uma tartaruga.

     - Uma tartaruga? - perguntou Penélope, a tartaruga, espreitando para fora da sua carapaça castanha. - Que temos nós, tartarugas, com a tua ferida?

     - Sim, uma tartaruga - repetiu a lebre. - Não me quererás dizer que voces tartarugas também correm, pois não? Nem sequer sabem andar. Praticamente não têm pernas!

     - Que insolente! - replicou Penélope, ressentida. - Vê bem se não tenho pernas!

     Fincou as patas anteriores numa grande pedra coberta de musgo, levantou o mais que podia o rabo, esticou as patas traseiras e fez com que saíssem completamente da carapaça. Mas, embora se tivesse esforçado muito, o resultado desse esforço foi tudo menos brilhante. Por isso houve risada geral.

     - Vá lá Penélope - interveio Teo, o veado. - Admite que quase não tens pernas...

      - Sim, sem pernas. Enfim, uma partida da natureza. - acrescentou Gertrudes.

     - Cuidado com a língua, rapaziada. Eu também me posso zangar! - interveio Clotilde, a serpente. 

 

Penélope, oh tartaruga,

tu sabes o quanto és vagarosa, 

que o tempo fica tão lento para ti...

 

Estica, estica, estica, 

e talvez com uma pata de cada vez,

talvez possas correr...

 

     - Seja como for, mesmo não sendo uma campeã de velocidade, acho que me poderei sair muito bem e com muita dignidade numa corrida com qualquer um de vós, seus presunçosos! 

 

Estica, estica, estica, 

e talvez com uma pata de cada vez,

talvez possas vencer...

 

     - Nhãnhãnhãnhãnhã-nhã! Vê se me apanhas! - cantarolou a Gertrudes, saltitando-lhe em volta.

      - Ah, não, assim é muito simples: no arranque não há dúvida que me ganhas. Eu entendo que uma verdadeira corrida é, por exemplo, a maratona...

     - Ah, ah! Vá lá, desafia-me! Penélope, desafia-me! Ouviste-me? Ah, ah! - zombou Gertrudes, continuando a saltitar.

     - Parece-me que a questão se pode resolver com uma bela corrida - sentenciou Teo, com uma sacudidela dos seus extraordinários chifres. - Eu, a raposa Rossela, aqui presente, e a serpente Clotilde seremos o júri. O percurso poderá ser a volta ao Pico Solitário, seguindo a margem do ribeiro até à nascente. Acha-lo muito comprido, Penélope?

     - Está muito bem.

     - E a ti, Gertrudes, parece-te bem?

     - O quê? Mas vocês devem estar malucos. Eu a competir com uma tartaruga? Perderam o juízo, com certeza, meus amigos!... Está bem, já que é o que querem, assim seja.

     Dito e feito. As duas concorrentes alinharam junto ao Grande Carvalho.

     - Estão prontas?... Partida! - gritou Teo.

     Penélope levantou lentamente uma pata e, quando voltou a pousá-la no chão, já Gertrudes desaparecera na curva.

 

Eu sou a lebre eficaz, sou um ÁS! 

Tu nunca mais me apanharás...

sou a lebre eficaz, sou um ÁS!

oh pequena, pobre tartaruga!

nunca mais me apanhas, 

nem te esforces mais!

porque eu sou a lebre eficaz, sou um ÁS!

oh pequena, pobre tartaruga!

 

     “Que ideia tão tola!” - pensava a lebre enquanto corria. - “Pôr-me a correr a esta hora da manhã, de estômago vazio, por causa daquela tartaruga maluca... Não é possível!”

     Correu e saltou e, entretanto, chegou o meio-dia.

     “Já devo ter um grande avanço sobre ela” - pensou a Gertrudes. - “Estou tentada a parar para comer alguma coisa e dormir uma soneca...”

     Assim, saiu do caminho, aproximou-se da beira da valeta e comeu algumas cenouras tenrinhas. Em seguida, embrenhou-se no matagal e, ajudada pelo calor do sol primaveril, adormeceu profundamente.

     Quando acordou era noite cerrada. O silêncio era absoluto e a lua permanecia suspensa no céu, como se fosse uma enorme foice dourada.

     O coração começou a bater com força no peito de Gertrudes.

     - Pobre de mim! - exclamou. - Quanto tempo terá passado? Desde que não chegue muito tarde! - e lançou-se em grande corrida, com as suas longas orelhas ao vento.

     Como era veloz! As árvores e os matagais redemoinhavam diante dos seus olhos. Saltava por cima de moitas e de troncos caídos, e corria, corria, corria, sem nunca olhar para o lado e retomar fôlego..

 

Quem foi, quem foi o mais rápido afinal?

O mais veloz em todo o mundo animal?

A tartaruga nunca desistiu!

A tartaruga concentrou-se e não caiu!

E a lebre foi dormir, nem reparou que ela passou.

 

Será? Será? Será que vais ser capaz?

Lebre eficaz, não eras tu um ÁS?

Será? Será que viste quem vinha lá trás?

Será que serás p’ra sempre eficaz?

Que te basta ser um ÁS, será que serás capaz?

 

     Chegou, então, ao Pico Solitário, circundou-o e, vendo ao fundo os prados, retomou a corrida em direção ao Carvalho Grande.

     Mas o seu esforço foi inútil. Com o ouvido apurado ouviu um eco de bramidos, de sibilos, de latidos festivos. Em seguida distinguiu os perfis dos seus amigos animais, que se agitavam freneticamente ao luar.

     Não faziam mais do que festejar a vitória de Penélope que, naquele preciso momento, esgotada mas feliz, cortava a meta.

 

     Moral da história: “Devagar se vai ao longe.” Ou seja, muitas vezes , quem persevera no seu trabalho obtém melhores resultados do que quem, confiando nas suas capacidades naturais, se deixa levar pela preguiça.

 

 

As Mais Belas Fábulas de Esôpo. (1994). (Vol. Mais Belos Contos): Livraria Civilização Editora.

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